domingo, 26 de fevereiro de 2017

Requisitos indispensáveis aos professores e às escolas


A emergência das tecnologias digitais oferece uma oportunidade para desenvolvimento de novas práticas colaborativas, no entanto, se não for assente numa comunidade de prática, esta não emerge. Existem ainda profissionais estagnados nas crenças que têm deles próprios, fruto do isolamento e falta de supervisão e avaliação. As atuais políticas evidenciam requisitos indispensáveis aos professores e às escolas: formação permanente, que consideramos fundamental, sobretudo quando falamos de tecnologia e inovação; atenção à pluralidade social dos alunos, para uma verdadeira valorização e coesão social; trabalho colaborativo; e disponibilidade para um conjunto de relações com o exterior anteriormente vedadas e confinadas à escola. São estas relações com o exterior e as práticas colaborativas que consideramos que, se não forem genuínas, provocarão, num futuro próximo, um desgaste na geração de professores ao serviço.
O reconhecimento e a valorização dos professores voltaram aos recentes discursos do Ministério da Educação e temos a crença que são denominadores imprescindíveis para um ensino de qualidade associados àquilo que Day (2004) denomina de a paixão pelo ensino.
As agendas europeias têm colocado às escolas e aos professores desafios exigentes e que implicam competências profissionais, com influência no trabalho do professor, no desenvolvimento profissional e na carreira docente. Os países desenvolvidos buscam modelos de mudança, articulando pertinência e eficácia, democracia política e participação das pessoas envolvidas (Perrenoud, 2004).
As elevadas expectativas em relação a um ensino de qualidade capaz de formar jovens ativos requerem uma elevada qualificação por parte dos professores (Day, 2001), necessariamente, complementada por uma ‘dose’ considerável de motivação profissional que atravesse a carreira docente. O Conselho Nacional de Educação (Parecer n.º 5/2016) influi a atenção para as práticas e a qualidade dos professores, bem como as menores taxas de retenção; a mobilização de recursos para a ação educativa; a mediação familiar com os pais mais afastados da gramática escolar e de contextos socioeconómicos mais desfavorecidos.
Não há dúvida que devemos, ligado às práticas e à qualidade de ensino, repensar na formação dos professores em exercício de funções, valorizá-la e partilhá-la. Day (2001) refere que da mesma forma que as condições da sala de aula influenciam a capacidade dos professores na melhoria das aprendizagens dos alunos, também a cultura escolar circunscreve um apoio positivo ou negativo para a aprendizagem dos seus professores.

Tendências nos sistemas educativos


As teorias da reprodução social evocam que as crianças de culturas heterogéneas fazem aprendizagens diferenciadas, em que umas são mais beneficiadas que outras, estando assim em desigualdade face à escola e à cultura que transmite.
Os aspectos organizacionais não podem servir de atrito para o sucesso dos alunos e, como tal, urge cogitar sobre as faces da escola enquanto organização. Os preditores de insucesso escolar exigem hoje mais do professor. É urgente libertar os professores de tarefas administrativas que, nalguns casos, parece tratar-se de autoflagelação ou refúgio por parte das lideranças. É urgente canalizar esse esforço na formação, na articulação, na colaboração e no desenvolvimento profissional.
Relacionar o impacto dos projetos e como se relacionam com o currículo é outro aspeto relevante a ter em consideração para se caminhar para uma (possível) mudança de práticas. Para melhorar a sala de aula, a escolas devem promover a formação aos/entre professores, de modo a alargar o espectro de conhecimentos, e desenvolverem-se profissionalmente, numa comunidade de aprendizagem.
A emergência das tecnologias digitais oferece uma oportunidade para desenvolvimento de novas práticas colaborativas, assentes numa comunidade de prática. Este avanço tecnológico marca também as organizações educativas, obrigando-as a alterar as suas estruturas e fundamentos organizativos onde as teorias tecnológicas passam a fazer parte das teorias da educação.
Desde sempre que a tecnologia intervém a relação do homem com a natureza, mas na sociedade atual é muito mais visível e está presente em quase todos os aspetos da vida profissional, pessoal ou familiar.

A Regulação dos Sistema Educativos

O conceito de regulação é definido o modo como as autoridades públicas exercem a coordenação, o controlo e a influência sobre o sistema educativo, orientadas através de regras, obrigações e constrangimentos no contexto de ação dos diferentes atores sociais e seus resultados (Barroso, 2006). No caso de Portugal, o sistema público de educação foi construído com base em poder e autoridade do Estado, tendo evoluído, posteriormente, ainda que com exclusão da comunidade (p.e. os pais), dando origem ao colapso do “regime burocrático-profissional” (Barroso, 2006, p. 52) e “novas” políticas de reorganização do serviço público.

Segundo Barroso, os processos “multi-reguladores” que norteiam o sistema educativo são ajustados e reajustados por “interesses, estratégias e lógicas de ação de diferentes grupos de actores, por meio de processos de confrontação, negociação e recomposição de objetivos e poderes” (idem, 2005, p.734). No entanto, penso que há uma transformação na regulação das políticas públicas. Surgiram várias medidas de política educativa, tais como: o Programa Aproximar Educação, com descentralização de competências do Estado para os municípios e Escolas; projetos de Promoção de Sucesso Escolar - TEIP, metodologia Fénix/ Turma Mais, PIEF, PCA e, recentemente, o Programa Nacional de Promoção do Sucesso Escolar, coordenado pelo Professor Dr. José Verdasca, onde o papel das escolas e dos professores é determinante.

Os denominadores comuns para o sucesso do sistema, encontrado nos vídeos e no parecer do Conselho Nacional de Educação sobre “organização da escola e promoção do sucesso escolar”, são o sucesso escolar de todos os alunos e a confiança nos professores. O parecer do CNE refere: “o efeito escola e o efeito professor têm sido salientados, nas últimas décadas, pela literatura científica, como sendo cruciais para a qualidade das aprendizagens e para o sucesso escolar de todos, sendo possível e necessário não deixar um só aluno para trás” (CNE, 2016, p. 34472) sendo que nos próximos anos, “a sociedade portuguesa e as políticas públicas deveriam incentivar esta liberdade profissional, sustentada tanto na confiança nos professores como na certeza da sua responsabilidade profissional, num trabalho escolar cada vez mais cooperativo” (Ibid, 34474). Não há dúvida que isso o sistema finlandês sob fazer. Devemos tratar diferente o que é diferente, no entanto, diminuir o número de alunos por turma, p.e., pode não produzir os efeitos desejados, caso não se mudem as práticas dos professores na sala de aula. Não há dúvida que devemos repensar na formação dos professores em exercício de funções, valorizá-la e partilhá-la. Quem sabe não poderia ser o factor primeiro para uma futura progressão na carreira...

Barroso, J. (2005b). O Estado, a educação e a regulação das políticas públicas. In: Educação & Sociedade. Revista de Ciências da Educação. Campinas (Brasil): Centro de Estudos Educação e Sociedade (CEDES), 26(92), 725-751.
Barroso, J. (org). (2006). A regulação das políticas públicas de educação. Espaços, dinâmicas e actores. Lisboa: Educa/Unidade de I&D de Ciências da Educação.
Conselho Nacional de Educação. Parecer n.º 5/2016 de 18 de novembro de 2016. Organização da escola e promoção do sucesso escolar. Lisboa, CNE

domingo, 15 de janeiro de 2017

Aprendizagem ao Longo da Vida: Globalização e Mudança Educacional

Os desafios que se colocam aos sistemas educativos na União Europeia são, na generalidade, semelhantes. Umas das inquietações mais comuns é a melhoria da qualidade do ensino e, naturalmente, das aprendizagens ao longo da vida, desde o pré-escolar à idade pós-reforma.
Como medida fundamental de resposta europeia à globalização e à transição para economias baseadas no conhecimento, foram definidas novas competências de base a adquirir ao longo da vida, dando relevância ao capital humano, devendo a educação ter na sua agenda uma "reforma sistémica visando padrões mais desafiadores aliados a uma funcionamento mais flexível da escola" (Estêvão, 2002, p. 11). conceito de Aprendizagem ao Longo da Vida (ALV) foi definido, pela Comissão Europeia,  como “toda e qualquer atividade de aprendizagem, com um objetivo, empreendida numa base contínua e visando melhorar conhecimentos, aptidões e competências”. 
Das considerações explanadas pelo Estados-membros (Decisão 2006/1720/CE do Parlamento Europeu e do Conselho de 15 de novembro de 2006), fiz um paralelismo do (pouco) que conheço que foi sucedendo em Portugal. Sobre a definição de objetivos específicos destinados a:
i)               promover a aprendizagens das línguas. Em Portugal, vimos a introdução, obrigatória, da língua inglesa a partir do 5.º ano e, recentemente, a partir do 3.º ano de escolaridade do 1.º ciclo do ensino básico, tendo em vista os níveis desejáveis a atingir do Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas.
ii)         desenvolver o espírito empresarial. Nos últimos anos, difundiram-se várias iniciativas de empreendedorismo no ensino básico e secundário, articulando com as empresas/ fundações, como por exemplo, o caso do projeto “Ter Ideias para Mudar o Mundo”, da Fundação Coração Delta, com bons exemplos e partilhas de boas práticas na educação pré-escolar.
iii)            Reforçar a dimensão Europeia na Educação. Um exemplo são os programas Erasmus, Comenius, Leonardo da Vinci e Grundtvig e, desde 2014, o programa Erasmus+ desdobrado em diversas ações-chave. Sobre este ponto, da minha experiência pessoal, em Comenius e em Erasmus + das várias mobilidades que fiz ao longo dos últimos anos, o nosso comportamento e as nossas ações alteram-se e enriquecem-nos de modo imensurável, após experiências de partilha nesta “aldeia global”, desenvolvemo-nos como professores/ alunos mas também como pessoas. Saímos sempre mais ricos destas experiências. O programa pretende, entre outros objetivos, elaborar, promover e divulgar as melhores práticas no domínio da educação, incluindo novos métodos ou materiais didáticos.
iv)            A importância de as pessoas serem capazes de se adaptar à mudança vs a importância da inserção das pessoas no mercado de trabalho e o papel-chave desempenhado pela aprendizagem ao longo da vida, que se cruza com a discrepância significativa, apontada na recomendação, entre os níveis de educação exigidos pelos novos empregos e os que são atingidos pela mão-de-obra europeia. Como vimos em filmes disponibilizados no tópico anterior (https://youtu.be/Ax5cNlutAys), estamos a ensinar os nossos alunos para muitos empregos que ainda não existem, mas, por vezes, com taxas de insucesso bastante altas. Como refere a publicação livro branco sobre a educação e a formação “as tecnologias da informação transformaram a natureza do trabalho e a organização da produção. Estas mutações estão a alterar profundamente a sociedade, no entanto, a escola não consegue fazer aprender os públicos atuais porque insiste em aplicar um modelo de funcionamento arcaico, mas o insucesso deles é, de facto, o insucesso das instituições (Gaspar & Roldão, 2005). 

Biblioteca Infoeuropa - Registo bibliográfico - Livro Branco sobre a Educação e formação : ensinar e aprender : rumo à sociedade cognitiva. (sem data). Obtido 8 de Janeiro de 2017, de https://infoeuropa.eurocid.pt/registo/000037230
Decisão 2006/1720/CE do Parlamento Europeu e do Conselho de 15 de novembro de 2006. Jornal Oficial de 24 de novembro de 2006.
Estêvão, C. V. (2002). Globalização, Metáforas Organizacionais e Mudança Educacional: Dilemas e Desafios (1.a edição). Porto: Edições Asa.
Gaspar, M., & Roldão, M. (2005). Processo do desenvolvimento curricular em situação. Em Elementos do Desenvolvimento Curricular. Universidade Aberta.